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  • Vereador Pedro Kawai

Superando a própria ignorância



Esta semana, o atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, prestou um desserviço à nação brasileira, ao afirmar, com todas as letras, que é contra uma política nacional de inclusão de crianças nas escolas, sob a alegação de que elas “atrapalham” o aprendizado das demais. A frase caiu como uma bomba no meio pedagógico e, especialmente, junto às organizações sociais que cuidam da reinserção social de pessoas com algum tipo de deficiência. Pior que isso, repercutiu internacionalmente, aumentando o estrago na já deteriorada imagem do nosso país no exterior.


A vexatória declaração de quem deveria fazer cumprir os princípios constitucionais da igualdade e dos direitos individuais, não foi um ato falho ou isolado. Ela foi proposital e é perigosa, porque expressa uma conduta, um alinhamento político e ideológico que tem caracterizado o Ministério da Educação como de resto, o próprio governo federal.


Uma vergonha sem tamanho, ainda mais provocada por um teólogo que, em tese, deveria ser profundo conhecedor da doutrina cristã, a qual prega a igualdade, a fraternidade, o amor entre as pessoas, a tolerância e a caridade. Trocou a chance de ficar calado pela disputa com seus antecessores de entrar para a história como o mais medíocre de todos: Ricardo Vélez Rodríguez, o colombiano que afirmou que as universidades deveriam ser reservadas para uma elite intelectual; e Abraham Weintraub, recordista oficial de gafes do atual governo que, além dos atentados contra a língua portuguesa e sua gramática, virou piada nacional ao confundir o nome do escritor tcheco Franz Kafka, com Cafta, uma comida de origem árabe.


O conservadorismo extremo de segmentos do governo federal caminha na contramão da modernidade, da conquista de direitos, do fortalecimento dos movimentos sociais e da própria evolução da sociedade. O mundo se tornou uma aldeia globalizada, na qual há espaço até mesmo para os mais radicais, mas isso não significa a permissão para a imposição de um regime autoritário e absolutista de governo, como tem sido evidenciado no Brasil.


Estranho como nos solidarizamos com as mulheres mulçumanas, arrancadas de suas funções sociais e profissionais pelo Talibã, e somos permissivos com as atrocidades homofóbicas e os feminicídios cometidos no Brasil.


É surreal que estejamos assistindo a um capítulo da história em que autoridades nacionais afirmam ter visto Jesus em uma goiabeira; que permitam a devastação da Amazônia em favor de pecuaristas e madeireiros; que mintam sobre o perigo de uma vacina transformar pessoas em jacarés; que disseminem a absurda teoria de que a terra é plana, que vermífugo combate a Covid-19 e, agora, que declarem que crianças cegas, surdas, down, autistas ou com qualquer grau de deficiência devem ser isoladas do convívio com outras crianças, porque “são menores, incapazes, inferiores e atrapalham”. Absurdo!


Senhor ministro, talvez lhe falte conhecimento o suficiente, mesmo como Ministro da Educação, para saber que o convívio entre jovens e crianças, com ou sem marcas é um exercício pleno da diversidade. É a prática permanente da tolerância, da aceitação do outro, da pluralidade e do respeito ao próximo. São elas quem nos ensinam, acredite, ministro. O senhor poderia, quem sabe, investir algumas horas do seu precioso tempo para ler mais sobre a pedagogia e descobrir os benefícios dessa convivência que o senhor pretende interromper.


É incrível a capacidade que os sucessivos ministros da educação do atual governo possuem de serem piores que seus antecessores. Talvez seja um critério, uma estratégia para atrair os holofotes para outras direções, desviando, assim, a atenção da opinião pública para o processo de deterioração diária de um governo acéfalo, frágil de caráter, honestidade e, pior, de capacidade de raciocínio.

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