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  • Vereador Pedro Kawai

Principais doenças têm relação com formas urbanas, aponta professor

Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP, participou do evento “Diálogos sobre ciência, tecnologia e sociedade” dentro do Simapira 2021




O crescimento desordenado das cidades, produzindo desigualdades de acesso a direitos sociais, reflete também na cartografia das principais doenças contemporâneas. “O risco de uma pessoa ter infarto em uma metrópole como São Paulo varia de 10 a 12 vezes de acordo com o CEP dela”, avalia Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP.


Saldiva participou do evento “Diálogos sobre ciência, tecnologia e sociedade: alicerce para cidades mais saudáveis e sustentáveis”, na noite desta quarta-feira (2), na Escola do Legislativo “Antonio Carlos Danelon – Totó Danelon”, da Câmara Municipal de Piracicaba. A atividade integrou a Simapira 2021 (Semanas Integradas do Meio Ambiente de Piracicaba).

Ele fez um relato tendo como fio condutor a própria evolução humana e a relação com as formações comunitárias desde a Pré-História. “A falta de recursos naturais ativou a criatividade para dominar o processo de produção de alimentos, o que desenvolveu populações que se alimentam mais. Se de um lado temos mais tempo livre, por outro desenvolvemos doenças”, destaca.


Apresentador do programa Urbanite, da TV Cultura, Saldiva destacou que as cidades que cresceram demais têm quatro patologias mais frequentes: 1) doença mental: 2) obesidade; 3) câncer e 4) febres. “Desde a II Guerra Mundial, as cidades acabaram sendo ampliadas, não tiveram tempo para amadurecer e foram se criando várias cidades em um mesmo município, com diferentes taxas de natalidade, expectativa de vida e vulnerabilidades”, aponta.


Saldiva aponta as doenças mentais como “a epidemia do Século XXI”, abatendo principalmente jovens na faixa abaixo de 19 anos, índice que cresce quase 10% ao ano. O motivo reside na ansiedade e o desenvolvimento de depressão. Sob um olhar calcado na evolução humana, o médico lembra que o ser humano é preparado para trabalhar em colaboração e em núcleos sociais, mas, principalmente nas cidades grandes, há um ambiente de invisibilidade.


Os problemas também estão relacionados com a qualidade do sono. “O nosso ciclo entre claro/escuro deveria ser em uma proporção de 60% no escuro e 40% no claro, mas a gente leva o Sol para a cama em telas de computador e televisão”, destaca. Para ter todos os ciclos do sono, é preciso ter de 2 a 3 horas de penumbra. “Se a gente fica muito no claro, a gente vai dormir menos”, aponta.


Outro problema, já bem conhecido, e que se conecta com a vida nas cidades é a violência urbana. “Esse sistema de hiperestimulação também coloca a gente em um estresse constante, aliado a isso tem a poluição sonora, o que contribui para quem já tem uma tendência genética a desenvolver doenças psíquicas”, detalha.


Se na Pré-História a capacidade de absorção de gordura garantiu a sobrevivência do homo sapiens, essa característica nas cidades atuais se torna um problema que gera a obesidade e todas as patologias relacionadas a ela. “Naquele período o grande problema era a fome e o nosso organismo tinha este sistema de defesa, agora, nos supermercados, você tem abundância de alimentos”, destaca.


O câncer é explicado por um conjunto de fatores. Com a obesidade, gera mais insulina, a célula adiposa produz citocinas que mantêm inflamação crônica e libera fatores de divisão celular. As células transformadas tem chance de fazer mais células e, neste processo, sofrer mutação esporádica. Embora haja mecanismo de controle, ele pode ser vencido. “Soma-se a tudo isso, o estresse que aumenta o cortisol e reduz imunidade, poluentes no ar e carcinógeno na alimentação”, explica.


FEBRES – “As pandemias globais surgiram do comércio”, ressalta Saldiva. A diferença é que, com o desenvolvimento tecnológico, foram se espalhando com cada vez mais velocidade. Enquanto a varíola levou um século para atingir todos continentes – tendo sido introduzida na América Central pelos invasores europeus –, a chamada “gripe espanhola” (cuja origem é dos Estados Unidos) demorou entre dois a três anos para se espalhar.

O médico enumera doenças que foram se espalhando ao longo da História, como febre amarela, sífilis e cólera. “Pandemias vieram para ficar”, aponta. Ele destaca que a diferença entre a possibilidade de transmissão de uma doença está relacionada à velocidade de como atua no hospedeiro. “O ebola não saiu da África porque quem era acometido, acabava já ficando de cama”, destaca, apontando a diferença com pacientes assintomáticos que geraram a disseminação da Covid-19.


Saldiva defende a vacina, mas lembra que não é “tudo”, já que há doenças com vacinas há décadas, mas que até hoje não foram extintas, como a pólio. “O nosso principal desafio é possibilitar condições dos países vacinarem suas populações”, disse, ao demonstrar preocupação com a falta de imunizantes. “Ainda não definimos se a vacina é um bem comum ou uma commodditty”, critica.


SIMAPIRA 2021 - O evento integrante da Semanas Integradas do Meio de Ambiente de Piracicaba contou com a abertura feita pela diretora da Escola do Legislativo, vereadora Silvia Morales, do mandato coletivo A Cidade É Sua (PV), e pelo coordenador Pedro Kawai (PSDB). Contou, ainda, com a mediação do engenheiro agrônomo Ciro Abud Righi, professor do Departamento de Ciências Florestais da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”). A programação do Simapira 2021 segue durante todo o mês de junho e envolve atividades on-line e presenciais. Para saber as próximas atividades acesse este link:

https://www.camarapiracicaba.sp.gov.br/simapira-2021-programacao-preve-atividades-presenciais-e-virtuais-52760



Texto: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337

Supervisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337

Revisão: Erich Vallim Vicente - MTB 40.337

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