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  • Vereador Pedro Kawai

O legado de Isabel

"É possível imaginar as dificuldades vividas pelos ex-escravos, na tentativa de iniciar uma nova história. O que não se tem ideia é da intensidade do sofrimento que sentiram apenas por terem o tom da pele mais escura".



Muitos acreditam que a filha do imperador Dom Pedro II tenha sido a princesa defensora dos negros e que, num ato de bravura e altruísmo, tenha assinado a Lei Áurea, decretando o fim da escravidão no Brasil, em 13 de maio de 1888. Outros, defendem a tese de que o Brasil, ainda sob o domínio português, sofria uma forte pressão internacional para converter escravos em mão de obra assalariada, tendo em vista a explosão de fábricas, decorrente da Revolução Industrial, na Europa.


Ao investigar mais profundamente os fatos históricos, narrados por pesquisadores e estudiosos, notadamente respeitados e reconhecidos por suas produções literárias e acadêmicas, é possível descobrir fatos que não constam em registros oficiais, o que torna a nossa história pouco verdadeira.


O Brasil foi o último país do Ocidente a libertar seus escravos e, ao que se sabe, a Lei Áurea foi, na verdade, o resultado de um processo abolicionista. Em 1850, por exemplo, a Lei Eusébio de Queirós decretou o fim do tráfico de escravos. Vinte e um anos mais tarde, a Lei nº 2.040/1871, tornou livres os negros nascidos a partir de então e, em 1885, a Lei dos Sexagenários, deu liberdade aos escravos que completassem 60 anos de idade.


Mas o legado de Isabel deixou o país dividido. De um lado, os libertos foram, da noite para o dia, despejados em uma sociedade que os tratava como menos. A escravidão social continuou, embora, no papel, fossem livres. Em direção oposta, a maior parte dos latifundiários, obrigada a libertar seus escravos por força de lei e, com a promessa de serem ressarcidos pelo Império, não recebeu os valores devidos pela monarquia, o que impulsionou o fortalecimento do movimento republicano, culminando com a Proclamação da República, um ano após a abolição da escravatura.


É possível imaginar as dificuldades vividas pelos ex-escravos, na tentativa de iniciar uma nova história. O que não se tem ideia é da intensidade do sofrimento que sentiram apenas por terem o tom da pele mais escura. Sofrimento, aliás, que se sente até hoje, em um país que se omite em valorizar a contribuição dos negros para o desenvolvimento da nação, para o fortalecimento da nossa democracia e para os movimentos em defesa dos direitos humanos. Sim, porque somos todos de uma mesma espécie: a espécie humana.


Parte considerável dos afrodescendentes não celebra o 13 de Maio como um dia festivo, porque defende que tratou-se de um dia de “despejo”, de “descarte”, e não de acolhimento, como poderia ter sido. Uma grande ferida social, que até hoje sangra em manifestações racistas nos campos de futebol, no mercado de trabalho, e em brincadeiras inconvenientes no meio social.


Talvez, o legado de Isabel tenha sido maior do que ela poderia imaginar que seria, pois, a luta pela igualdade, pelo direito de ser diferente, ganhou mentes e corações, ampliando-se para outras minorias, que igualmente sofrem a opressão, são vítimas de discriminação, preconceito e violência.


O aumento da intolerância e o ressurgimento de movimentos extremistas na sociedade brasileira, acende a luz de alerta. O ódio por aquele que pensa diferente voltou a dividir nossa sociedade, numa triste e vergonhosa evidência do retrocesso que estamos vivenciando em pleno século XXI.


Portanto, o 13 de Maio não é apenas uma data para a reflexão dos descendentes de escravos, mas para todos nós, brasileiras e brasileiros que desejamos um país livre da ignorância e da maldade.


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