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  • Vereador Pedro Kawai

O ensinamento da flor de cerejeira



Alguém que descende de orientais não traz apenas como marcas, os olhos puxados, os cabelos escuros e o tom amarelado na pele. Nossos traços são mais profundos e estão gravados em nossas almas. Só fui compreender melhor isso, depois de jovem, quando tive a oportunidade de viver por uma década no Japão.


Foi um período de dificuldades, porque a distância entre o Brasil e o Japão não é apenas geográfica, mas cultural. A complexidade da língua, a culinária característica, os rituais religiosos, o culto à meditação, o respeito à individualidade das pessoas e o desapego material foram aspectos que mais impactaram a mudança no meu comportamento, ajudando a compor a pessoa na qual me transformei.


Importante esse preâmbulo para justificar o tema deste artigo, que escrevo em referência às comemorações dos 113 anos da chegada dos primeiros japoneses ao Brasil e os 103 anos em Piracicaba, celebrados no dia 18 de junho.


Meu pai me conta, sempre que nos sentamos para “aquele papo”, que a vida no Japão era próspera quando meus avós aqui chegaram, em 1925. Meu avô, Motoitiro era militar da guarda do Imperador e, minha avó, professora. Quando desembarcaram do navio encontraram um país agrícola, que recebia imigrantes para trabalhar no campo. Não apenas japoneses, mas italianos, espanhóis e poucos franceses em busca de uma nova vida, de uma nova história.


Essa foi a saga de muitas famílias nipônicas que deixaram o arquipélago, a terra do Sol Nascente, para tentar a sorte do outro lado do planeta. Cento e treze anos atrás, o mundo ainda registrava casos da devastadora pandemia da gripe espanhola que vitimou mais de 50 milhões de pessoas. Por uma triste coincidência, mais de um século depois, vivemos uma nova pandemia: a do novo Coronavírus, que já ceifou a vida de 3,7 milhões de pessoas.


Contudo, assim como meus antepassados resistiram e trabalharam bravamente, enfrentando as mais variadas adversidades, como as diferenças culturais, a culinária, a língua e as nossos costumes, experiência que já relatei ter vivenciado, eles perseveraram e venceram. Meus avós paternos, a minha mais próxima referência familiar de resiliência, chegaram alguns anos depois dos primeiros japoneses a pisarem em solo brasileiro, mas representam a sabedoria milenar de um povo que superou guerras e os seus próprios limites em nome da honra e da própria vida.


Lembrar, ano após ano, a trajetória dos imigrantes japoneses é uma forma de não deixar que a história se apague, e que ela sirva de exemplo e de inspiração a todos nós brasileiros, descendentes de todas as nações que ajudaram a formar a nossa gente. Aprendi muito com as histórias contadas no dia a dia, tanto no Nipo Piracicaba, Chácara Sol Nascente, quanto pelas lembranças da infância do meu pai. Uma delas, faz referência às flores de cerejeira: elas simbolizam a efemeridade das nossas vidas e ao lema dos samurais, que é “viver o presente sem medo”.


As cerejeiras florescem por um tempo muito curto, mas sua beleza e o perfume das flores são tão marcantes que se igualam à própria existência humana. Por isso, elas são tão importantes para os japoneses, e nos ensinam que devemos viver a vida com beleza e suavidade, porque somos breves e frágeis, mas inesquecíveis como elas.

Assim, devemos ser, como seres humanos, leves sem perder a força, para assim, deixar um legado de equilíbrio, habilidade e, claro, amor ao próximo.


Pedro Kawai (PSDB) é vereador em Piracicaba

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