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  • Vereador Pedro Kawai

Calar-se, até quando?




Recebi a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Indescritível a sensação de segurança e acolhimento, que me encheu o coração de alegria e de esperança. Mas ao deixar o local de vacinação, olhei para trás e, observando por alguns instantes aquela fila de pessoas ansiosas por proteção, não pude deixar de pensar nas mais de 500 mil pessoas que não tiveram a mesma chance de viver.


Me lembrei dos amigos que perdi, dos amigos dos meus amigos e dos milhares de anônimos que foram sepultados sem que seus familiares pudessem ao menos se despedir. Embalados em um saco plástico, transformando-se em estatística. Uma realidade chocante que, com o passar do tempo passou a ser comum para muitos, mas não para mim. Banalizou-se a morte. A minha percepção é a de que poucos ainda se espantam quando a prefeitura informa quase uma dezena de mortos diariamente.


Como agente público, exercendo o mandato de vereador, me empenho diariamente para ajudar a melhorar a vida das pessoas e o desenvolvimento de Piracicaba. Apresento projetos de lei, faço indagações ao Executivo através de requerimentos e ajudo o governo municipal a cuidar da cidade, com as indicações que envio todos os dias para as diferentes secretarias. Isso é a minha obrigação enquanto parlamentar. Do mesmo modo, entendo que deveria ser obrigação das autoridades que ocupam cargos mais elevados, zelar pelo bem comum. Aliás, essa é sim uma atribuição prevista na Constituição.


Contudo, o que se vê é o deboche, a negação da ciência, a indiferença e o desprezo pela vida. Nenhuma só palavra para lamentar os meio milhão de brasileiros que morreram vítimas dessa doença que poderia ter sido contida, não fosse o egoísmo político e a absoluta falta de empatia de alguns.


Não faço uma crítica ideológica, porque posso até não concordar com a postura dos extremistas, mas respeito a opinião de cada um. Trata-se de uma constatação. E, o que mais me espanta, é a conivência de alguns, a subserviência de outros e a indiferença das instituições que talvez agissem diferentemente se algumas cadeiras fossem ocupadas por outras pessoas.


Estamos em compasso de espera, como se aguardando que tudo isso termine, que amanhã tudo será diferente. Mas nada mudará se nós não mudarmos. E a mudança começa pela coragem de fazer o enfrentamento político, no debate, com argumentos e fundamentação científica. Não há que se temer o radicalismo, as fakenews e as ameaças feitas por quem pensa diferente de nós. Ser diferente é um direito, assim como ter uma opinião diferente também é.


Negar a democracia e a atribuição de cada um na estrutura social do nosso país é negar a nossa própria história republicana, e a nossa condição cidadã. Assim, defenda a sua opinião, argumente, discorde e não se cale, independentemente de que lado esteja. Não brigue nem imponha, mas sim, construa argumentos trazendo convencimento e conhecimento.


(Publicado em A Tribuna Piracicabana – 29/06/2021)

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