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  • Vereador Pedro Kawai

11 de setembro: o trauma do radicalismo e da intolerância




O “11 de setembro” completa hoje vinte anos, desde que dois aviões sequestrados por extremistas da organização fundamentalista islâmica al-Qaeda, se chocaram contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, provocando o mais traumático ato terrorista da história dos Estados Unidos. Eu vivia no Japão e, mesmo do outro lado do mundo, sem nunca ter, até então, conhecido aquele símbolo americano, me senti atingido, e privado de não mais poder um dia, quem sabe, conhecê-las.


Por trás daquele assassinato em massa, que interrompeu a vida de quase três mil pessoas, evidenciou-se o ódio, o revanchismo, o fanatismo e a intolerância de seguidores de um regime absolutista, armado até os dentes, que mata e barbariza em nome de Deus e de seus líderes.


Duas décadas depois, o que o mundo aprendeu com esta dolorosa lição? Evoluímos em questões ligadas aos direitos humanos, à solidariedade, à erradicação do preconceito em todas as suas formas, e a outros sentimentos que nos destroem enquanto seres humanos, criados à imagem e à semelhança de Deus? Nos tornamos mais tolerantes ao contraditório?


A alternância do poder e as políticas xenofóbicas em ascensão nos últimos tempos, autoproclamadas como “nacionalistas”, trouxeram Donald Trump ao poder, e fizeram emergir outros nomes como Santiago Abscal, na Espanha; Matteo Salvini, na Itália; Viktor Orbán, na Hungria; Alice Weidel, líder no Parlamento alemão; Marine Le Pen, líder do Agrupamento Nacional, na França; Jussi Halla-aho, líder do Partido dos Finlandeses, entre outros mais ou menos conhecidos. Na Suécia, por exemplo, o Partido Democrata, que, contraditoriamente, tem suas raízes no neonazismo, cresceu 18% nas eleições de 2018, advogando ideais conservadores extremistas. Acrescente-se a isso, os golpes de Estado praticados contra os que possuem visões de mundo diferentes das convicções ideológicas e filosóficas, como por exemplo, o praticado pelo Talibã, no Afeganistão.


O alemão Julian Junk, do Instituto de Pesquisa da Paz em Frankfurt, coautor de um capítulo do relatório sobre a transnacionalidade de movimentos de extremistas na Alemanha, revela que os movimentos violentos de extrema direta têm se aproveitado da revolução criada pelas mídias sociais para espalhar suas mensagens, ideologias e narrativas tendenciosas para além de suas fronteiras.


E tudo isso não é coincidência. Esses movimentos são organizados e financiados internacionalmente, e agem de forma coordenada, como se seguissem um manual de intolerância e ódio para manterem-se no poder, apropriarem-se indevidamente do bem público, inclusive de símbolos nacionais. É um modus operandi detalhadamente ensinado pelo ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebels.


Estamos cansados de tudo isso. O mundo já não suporta mais os extremismos de direita nem de esquerda. E não somos obrigados a compactuar com nenhum desses lados, porque entre o não e o sim, há o talvez, que representa o equilíbrio e a serenidade. Viramos reféns da forma como pensamos e sobre como agimos - segundo a nossa convicção e nossos valores, construídos ao longo de uma vida - apenas porque, às vezes, discordamos. Para evitar o conflito com pessoas queridas, com as quais nem sempre há o entendimento, temos que nos calar e nos omitir, escondendo as nossas razões e calando os nossos argumentos para não magoar, para não romper um laço de amizade.


O que nos tornamos depois do 11 de setembro? Será que essa tragédia não nos valeu como ensinamento? Quando penso em um líder, capaz de dialogar com a direita e com a esquerda, me vem à mente o maior exemplo entre a humanidade. Ele tentou, negociou, apresentou as suas propostas, mas foi traído e duramente castigado, apenas por pensar diferente e por revelar a sua verdade. Ficou no centro, crucificado entre a direita e a esquerda e, mesmo no auge do seu sofrimento e do seu sacrifício, buscou o perdão e a conciliação.


Falhamos, e continuaremos a falhar mais ainda, se persistirmos na omissão e na conivência de setores e de pessoas que podem, por dever de ofício, estancar essa divisão que corrói o Brasil. Que este 11 de setembro nos sirva de reflexão para compreendermos, definitivamente, que podemos discordar sem desrespeitar e que o nosso direito termina quando começa o do próximo.

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